domingo, 7 de novembro de 2010

Clara de todos os tempos

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

1.Clara, filha de nobres, vive em seu coração um desejo de plenitude. Nada nela é feito de coisas pela metade. Nada é medíocre. Nasce, cresce e vive em ambiente de paz, no seio de uma família nobre e bem aquinhoada. Não condena ninguém. Nem ricos, nem nobres. Escuta a mãe falando das coisas da Terra Santa e ela, Clara, vai nutrindo misteriosamente o desejo de ser somente de Deus. No ar da época há um desejo de volta ao Evangelho. Mulheres beguinas andam de um lado para o outro. Tudo se acelera quando aparece um moço de Assis chamado Francisco. Aquele jeito de viver, aquela energia e a força que irradiava “precipitaram” as coisas. Ela queria o Evangelho... o Evangelho todo...
2.Na noite de um domingo de Ramos, a moça é recebida na Porciúncula. Os frades lhe cortam o cabelo, vestem-na de roupas simples. Faz ela sua profissão de viver segundo a forma do Evangelho. Os frades a recebem. Francisco nada é para receber uma tal profissão. Deus inventa suas coisas.
3.Vai ela de um lado para o outro. Não acha seu lugar. As coisas vão se tornando mais nítidas. Havia uma igreja, com um Crucifixo sereno e bonito, uma igrejinha consagrada ao mártir Damião, fora dos muros de Assis. Ali começa a vida da Senhora Irmã Clara e de suas co-irmãs. Poucas irmãs, depois o número aumenta, a presença discreta dos frades, a proteção não tão próxima , mas verdadeira, de Francisco.... Uma vida extremamente simples...
Trabalho, corporais, sanguíneos, alfaias.. todos os dias... Dizem que elas faziam coisas maravilhosas.... Ofício, oração, meditação, contemplação... muitas horas, muitos meses, muitos anos... Cuidados com as irmãs: umas saiam uma vez ou outra, ... lavar os pés das irmãs, cuidar das doentes, cobri-las nos dias de frio... essas irmãs geradas pela força do Evangelho. Os frades lhes faziam pregação, elas recebiam deles as esmolas que conseguiam nas casas de Assis. Mas nisto não consiste o mistério de São Damião...
4.Clara vai se deixando tocar pelo Cristo pobre, seu esposo, seu querido esposo. Nas cartas que escreve a Inês de Praga fala do espelho onde está Cristo. Clara corre como a esposa do Cântico dos Cânticos para estreitar-se com ele num amplexo de amor. Uma contemplativa que escolheu a melhor parte que não lhe será tirada.
5.Não uma frágil mulher, mas uma Clara forte. Não admite viver a pobreza segundo os cânones do tempo... quer um privilégio de viver sem nada, absolutamente sem nada. Morre tendo nas mãos a aprovação do Privilégio e de sua Regra.
6.Vive doente muito tempo e no fim de sua vida agradece a Deus o dom da vocação.... e depois dela nasceram o mosteiros das senhoras pobres. Que estes possam ser lugares onde um pequeno grupo de mulheres possa viver somente para o Evangelho, um lugar onde reine um bem querer, onde abadessas continuem vendo se as irmãs estão cobertas no tempo do frio, onde não se brinca com a questão da oração, onde mulheres pobres se sentem muito unidas aos frades e juntos, cada um em seu lugar, louvem o Altíssimo e Onipotente e Bom Senhor.

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